IA aprende com pele humana viva para descobrir novos ingredientes cosméticos

A Outer Biosciences, startup cofundada por Michael Polansky, noivo de Lady Gaga, desenvolveu uma plataforma capaz de manter amostras reais de pele humana vivas por até um mês fora do corpo. Os experimentos realizados nesse tecido alimentam um modelo de inteligência artificial criado para identificar novos compostos com potencial de atuar sobre diferentes processos da pele.
A abordagem tenta resolver uma limitação importante da pesquisa dermatológica: amostras de pele normalmente permanecem viáveis por apenas alguns dias, período insuficiente para acompanhar fenômenos mais lentos, como remodelação de colágeno, mudanças de pigmentação e recuperação da barreira cutânea.
Pele humana permanece viva por semanas
A plataforma utiliza pele humana obtida de tecidos que seriam descartados após cirurgias, principalmente procedimentos plásticos. As amostras chegam sem informações que permitam identificar os doadores e são fornecidas por organizações especializadas que operam com consentimento documentado e supervisão institucional.
Um sistema desenvolvido pela Outer Biosciences fornece nutrientes ao tecido e remove resíduos metabólicos. Com isso, a companhia consegue preservar as amostras por aproximadamente 30 dias, mantendo características estruturais e moleculares próximas às observadas no início dos experimentos.
O tempo adicional permite estudar reações que normalmente seriam difíceis de acompanhar em laboratório. Em um dos exemplos citados pela startup, pesquisadores provocam danos causados por radiação UVB e monitoram durante semanas as respostas relacionadas a estresse, inflamação e recuperação do tecido.
IA aprende com resultados dos testes
Os experimentos fazem parte de um ciclo integrado com inteligência artificial. O modelo prevê quais substâncias ainda não testadas podem produzir determinado efeito sobre a pele. Os compostos selecionados são então avaliados diretamente nas amostras vivas.
Os resultados, positivos ou negativos, retornam ao sistema e são usados para melhorar as previsões seguintes. A proposta é construir gradualmente um modelo capaz de apontar candidatos mais promissores antes que todos precisem passar por experimentos físicos.
Antes da adoção dessa estratégia, a Outer Biosciences utilizava uma abordagem mais manual, baseada em literatura científica e na análise de compostos naturais. Esse processo gerou cerca de dois candidatos em aproximadamente 18 meses.
Com a inteligência artificial integrada à plataforma, a startup passou a identificar um novo candidato aproximadamente a cada seis semanas. Atualmente, seis compostos estão ativos no pipeline da empresa, além de dezenas de outros resultados considerados promissores.
Tecnologia já é usada em pesquisas com cosméticos e medicamentos
O foco inicial da Outer Biosciences está na descoberta de ingredientes cosméticos, e não de medicamentos. A estratégia é desenvolver os compostos e depois licenciá-los ou vendê-los para empresas de beleza ou farmacêuticas responsáveis pela formulação e comercialização dos produtos finais.
Dos seis candidatos atualmente em desenvolvimento, quatro apresentam potencial de chegar à comercialização, de acordo com Polansky. A empresa também obtém receita por meio de parcerias de pesquisa.
Entre os projetos está uma colaboração com uma companhia farmacêutica que investiga por que determinados tratamentos contra o câncer provocam erupções cutâneas severas. Marcas de beleza também utilizam a plataforma para comparar os resultados obtidos pela Outer Biosciences com seus próprios processos de desenvolvimento.
Startup já levantou cerca de US$ 23 milhões
Fundada em 2022 por Michael Polansky, Kyung-Jin Jang, Chris Hinojosa e Stanley King, a Outer Biosciences levantou aproximadamente US$ 23 milhões até agora.
A equipe conta com 19 funcionários. A maior parte trabalha nos arredores de Cambridge, Massachusetts, enquanto Polansky atua como CEO.
Lady Gaga, cujo nome é Stefani Germanotta, participa do conselho da startup. A Outer Biosciences também mantém algumas colaborações com a Haus Labs, marca de cosméticos fundada pela artista.
A companhia mantém seus sistemas de inteligência artificial em infraestrutura própria, sem utilizar a nuvem para armazenar os dados experimentais. Diferentemente de grandes modelos treinados com enormes volumes de conteúdo disponível na internet, a empresa precisa gerar sua própria base de informações por meio de experimentos biológicos.
O impacto para a pesquisa em pele e cosméticos
A combinação de tecidos humanos mantidos vivos por mais tempo com modelos de inteligência artificial pode acelerar uma etapa tradicionalmente lenta da descoberta de ingredientes para cuidados com a pele.
O diferencial está principalmente nos dados produzidos pela própria plataforma. Como os experimentos acompanham processos biológicos durante semanas e alimentam continuamente o modelo, a Outer Biosciences tenta criar uma base de conhecimento que não pode ser obtida simplesmente coletando informações existentes na internet.
A tecnologia, porém, continua sendo uma representação parcial do organismo humano. Pele mantida fora do corpo não reproduz completamente fatores como circulação sanguínea e a interação com células imunológicas recrutadas de outras regiões do organismo.
O objetivo de longo prazo é tornar o modelo preditivo suficientemente preciso para indicar caminhos promissores na biologia da pele antes mesmo da realização de cada experimento físico. Caso a estratégia funcione, o processo de descoberta de novos ingredientes dermatológicos e cosméticos poderá avançar em um ritmo muito mais próximo ao observado no desenvolvimento de software.








